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108 Estudo Da Vida Espiritual com Paula Puckett

A segunda parte de O Livro dos Espíritos trata da vida espiritual — e é, talvez, a parte mais extensa e mais difícil de imaginar concretamente. Kardec pergunta o que é o espírito, o que é a erraticidade, o que acontece entre uma encarnação e outra. As respostas vêm em forma de perguntas numeradas, claras, mas abstratas.

Por isso, no nosso estudo desta semana, resolvemos fazer um caminho diferente: usar Obreiros da Vida Eterna, obra de André Luiz psicografada por Chico Xavier, como ilustração viva do que Kardec descreve. Não é o Nosso Lar do filme, com o encantamento da chegada. Aqui o foco são os trabalhos: como os espíritos da colônia se organizam para socorrer os que estão na Terra e para receber os que acabam de desencarnar.

Dividimos a conversa em três eixos: a vida errante, a vida carnal e a finalidade da encarnação.

A vida errante não é sala de espera

A primeira pergunta é simples: o que é a erraticidade?

É o período entre uma encarnação e outra, quando o espírito está livre da matéria, na pátria espiritual. E aqui O Livro dos Espíritos desfaz um mal-entendido comum — o de que ficaríamos dormindo, suspensos, até que alguém venha nos buscar. Não é isso. Ninguém fica ocioso.

Na erraticidade se trabalha. Reencontram-se antigos afetos, revisa-se o caminho percorrido, compreendem-se as consequências das escolhas feitas, prepara-se a etapa seguinte.

Obreiros da Vida Eterna mostra isso de forma quase administrativa, e é justamente aí que ganha força. Logo nos primeiros capítulos há uma reunião de trabalho: quais são as dificuldades na Terra neste momento, quais grupos precisam de auxílio, quem vai a campo. Há hospitais, casas de recuperação, setores de assistência a espíritos sofredores. Espíritos que chegam confusos, sem saber que morreram. Vítimas de suicídio, de vícios, de apegos excessivos à matéria — todos acolhidos com paciência.

A mensagem é direta: servimos, não importa o plano. Material ou espiritual, a tarefa é a mesma. A erraticidade é mais uma oportunidade de praticar a caridade, não uma pausa entre elas.

Uma hierarquia que não se parece com a nossa

Nem todos os espíritos estão no mesmo grau de desenvolvimento, e a colônia deixa isso evidente: André Luiz convive com espíritos muito elevados e com irmãos que mal entendem onde estão.

Existe hierarquia, portanto. Mas ela não funciona como a nossa.

As hierarquias humanas costumam se organizar em torno do poder. Quem tem mais dinheiro sobe; quem manda, sobe. Isso não diz absolutamente nada sobre o coração de quem está no topo. No mundo espiritual, o critério é a moralidade. A posição é retrato do grau de evolução moral e intelectual de cada um — e quem lidera, lidera porque fez seu próprio trabalho.

E há um detalhe que muda tudo: quanto mais elevado o espírito, mais ele quer levar gente junto. É uma cadeia de auxílio. Os de cima não guardam o que conquistaram; querem puxar os que ficaram para trás. Nós ainda não vivemos isso na Terra, mas é o desenho.

Um episódio da obra ilustra bem. Um dos dirigentes, espírito bastante elevado, já não tinha muito interesse nos dramas terrenos — considerava a Terra assunto do passado, e pensava em outros rumos. Até que percebeu uma grande claridade descendo em direção ao nosso planeta. Foi perguntar o que era. Era Jesus, com seus amigos, descendo para socorrer os que aqui estão.

A pergunta que lhe restou foi essa: quem sou eu para me esquivar dos meus irmãos que ainda estão atrás?

Caminho da Luz, de Emmanuel, diz que, se Jesus afastasse o pensamento da Terra por um segundo, a Terra se perderia. É difícil dimensionar uma responsabilidade dessas. Mas serve de espelho em escala menor: quem são as pessoas que Deus colocou sob os meus cuidados? Uma, duas, três? A consciência coletiva começa exatamente aí.

E vale lembrar o momento em que André Luiz, médico, é convidado a varrer o chão em Nosso Lar. Todo papel contribui. Começa-se devagar.

O mundo espiritual não é sobrenatural

Existe influência do mundo espiritual sobre o físico? A pergunta de Kardec quase se responde sozinha para quem estuda. Mas há uma correção importante de vocabulário: isso não é sobrenatural. É natural. Faz parte das leis divinas. Uns estão encarnados, outros desencarnados — a diferença é o corpo, e só.

Na obra, a intervenção espiritual aparece como trabalho organizado, consciente, planejado por espíritos comprometidos, do mesmo modo que aqui temos profissionais de saúde, assistência social, psicologia. Cada um com seu posto, dos dois lados.

O que nem sempre lembramos é que a recíproca também existe. Dependendo das companhias que buscamos e das decisões que tomamos, a organização que se aproxima da nossa vida pode ser igualmente estruturada — sem boas intenções. Daí a importância da reforma íntima: baixando a vibração, atraímos quem vibra naquela faixa. A pergunta “por que estou sendo perseguido?” muitas vezes tem como resposta um convite que nós mesmos fizemos. E, com discernimento, é possível orientar à luz aquele que se aproximou.

O difícil é perceber. A influência costuma ser sutil a ponto de parecermos nós mesmos pensando. Por isso conhecimento importa: quem estuda começa a distinguir o que é seu do que não é. Como escreveram no chat durante o encontro: à medida que crescemos espiritual e mediunicamente, sentimos mais o mundo espiritual e damos mais atenção à intuição e aos sonhos.

Há ainda um efeito consolador nisso tudo. Ninguém fica embaixo para sempre. Se há quem trabalhe socorrendo sofredores, é porque sofredores podem se tornar espíritos superiores. Não existe condenação eterna — e quem já amou alguém que fez escolhas ruins sabe o peso que essa frase tira do peito. Céu e inferno são estados que criamos, porque a mente é criadora. Inclusive o “monstro da morte” que a humanidade inventou: as criações mentais podem ser tão pesadas que prendem o próprio espírito que desencarna.

Encarnar é bênção, não castigo

Encarnar é unir o espírito à matéria. E, na obra, isso aparece como um processo minuciosamente planejado: conhece-se a família, o ambiente, as provas. Nada improvisado.

Vale inverter a perspectiva com que costumamos olhar para a morte. Quando alguém desencarna, ficamos tristes aqui — e do outro lado há quem comemore o reencontro. O contrário também acontece: quando um espírito parte para nascer, há despedida na colônia. “Que bom que você segue seu caminho, mas eu fico.”

Obreiros da Vida Eterna fala dos que têm a bênção de encarnar. Costumamos tratar a encarnação como fardo; ela é oportunidade. Não é um recomeço do zero, como um jogo que zerou — é a próxima fase. Quem já aprendeu a andar de bicicleta não recoloca as rodinhas. Podemos estacionar e repetir os mesmos erros e sofrimentos, ou avançar porque aquilo já não é mais necessário.

Uma participante contou algo que resume bem esse ponto. Numa terapia, diante da pergunta “o que de pior poderia lhe acontecer?”, a resposta que lhe veio foi: Deus não me perdoar e eu não reencarnar. A encarnação como chance de desfazer o mal que fizemos e fazer melhor.

Por que não lembramos

Kardec pergunta sobre a memória: por que não recordamos as vidas anteriores? A resposta é o esquecimento momentâneo — as lembranças ficam veladas enquanto o perispírito se reduz para caber no corpo que começa a se formar.

Alguém sempre pergunta: mas não seria melhor lembrar, para não repetir?

Talvez para um errinho pequeno. Mas pense em ter cometido algo grave contra outra pessoa. Você a reencontraria nesta vida para pedir perdão — e ela, lembrando exatamente do que sofreu. Seria uma roda de culpa e cobrança de onde ninguém sairia. Nós somos, hoje, a melhor versão do que já fomos; carregar conscientemente tudo o que já fizemos provavelmente nos impediria de seguir em frente. Deus conhece nossas limitações.

Ainda assim, restam vestígios. Aquela pessoa da família com quem simplesmente não flui, sem motivo aparente. Provavelmente há algo a reatar — e o objetivo não é viver em conflito permanente, mas avançar um passo que seja.

Uma das participantes lembrou um relato conhecido: um espírito prestes a reencarnar tinha sonhos recorrentes de perseguição e angústia. Foi preciso todo um trabalho de desdobramento antes do nascimento, porque o pai que o receberia sentia repulsa sem saber por quê — aquele espírito o havia matado em outra existência. Houve conversa, houve pedido de perdão, e só então a reencarnação aconteceu.

Nem tudo o que dói vem para nos punir. Em outro relato citado no encontro, um espírito que havia violentado uma mulher tornou-se, mais tarde, um de seus mentores — por caminho aberto pelo perdão dela.

Diferenças de vida, etapas diferentes

A reencarnação também explica as disparidades que tanto nos incomodam. Por que uns nascem com tantas facilidades e outros batalham sem trégua? Por que tamanha desigualdade de saúde, de recursos, de afeto?

Porque cada um está numa etapa do próprio desenvolvimento. O que o outro vive não é o que você precisa viver agora.

E, de todo modo, a grama do vizinho é mais verde apenas de onde você observa. Ninguém sabe quais batalhas se travam dentro daquela casa, ou daquela mente. Vemos todos os dias pessoas com dinheiro e fama tomando decisões extremas. Ninguém sabe quanto fertilizante foi preciso para aquele gramado ficar assim — nem qual cano estourou por baixo.

A finalidade: obreiros

O título da obra já entrega o objetivo. Obreiros da Vida Eterna — trabalhadores da vida eterna. Trabalhadores do Cristo.

A finalidade da encarnação é a purificação do espírito através das provas, corrigindo imperfeições, e a contribuição para o progresso coletivo. Não é uma escalada solitária pela pirâmide. Eu me melhoro para me tornar capaz de ajudar quem ficou para trás. Isso, na prática, chama-se caridade — que não é reter o que é bom só para si, mas dividir.

Cada espírito tem sua missão, proporcional ao que já é capaz de sustentar. Ninguém é colocado numa tarefa em que vá fracassar. O que fica sob nossa escolha é como atravessaremos: com fé e confiança, ou arrastados. Os desafios que aparecem na nossa vida são desafios que Deus sabe que temos condição de enfrentar.

E aqui vale um alerta que surgiu no estudo: às vezes criamos a ideia de que nossa missão está em outro lugar — no centro, num grande projeto, num chamado distante — e acabamos negligenciando quem divide a casa conosco. Estamos morando com aquelas pessoas por um motivo. Se não fosse necessário, não estaríamos ali.


No fim, é isto: somos espíritos imortais, e esta encarnação é uma fase. Não sabemos quem fomos, quantas vezes voltamos, onde nascemos antes. Sabemos apenas que este capítulo faz parte de um processo muito maior.

Que o objetivo, se Deus quiser, seja poder dizer um dia, sem constrangimento: trabalhei para o Cristo, e fiz o meu melhor. Ajudando o próximo, também me ajudo.