O estudo desta manhã nos levou à Quarta Parte de O Livro dos Espíritos, aos capítulos que tratam das penas e dos gozos terrestres e das penas e dos gozos futuros. É um capítulo imenso, e talvez por isso mesmo tão fértil: quanto mais avançamos na leitura da obra, mais preparados chegamos a cada nova parte.
A conversa começou com uma pergunta simples e incômoda: por que sofremos?
A palavra “pena” assusta mais do que deveria
Quando lemos “pena”, pensamos logo em penalidade, em castigo, em conta a pagar. Mas o estudo mostra outra coisa. As penas e os gozos que experimentamos aqui são, na maior parte das vezes, consequência natural das nossas próprias ações. Não são sentença de um juiz irritado. São o desdobramento daquilo que semeamos.
Alguém no grupo resumiu bem: criamos expectativas sobre tudo o que está à nossa volta, baseadas naquilo que queremos ou achamos que merecemos. E sofremos quando as coisas não acontecem do jeito que esperávamos. O sofrimento nasce muito mais das nossas imperfeições, das nossas tendências e das nossas escolhas do que de qualquer coisa que Deus tenha determinado.
Dor e sofrimento não são a mesma coisa
Essa foi uma das distinções mais bonitas da manhã. A dor existe e sempre existirá. Ela chega, atravessa a gente e passa, porque não é eterna. O sofrimento, esse é escolha. Podemos decidir permanecer nele indefinidamente, e muita gente decide. Pelo livre-arbítrio, escolhemos sair ou ficar.
Reconhecer isso não diminui a dor de ninguém. Só devolve às nossas mãos uma parte da responsabilidade que costumamos entregar ao acaso.
Somos os artífices da nossa infelicidade
O estudo trouxe a questão 921 de O Livro dos Espíritos, na qual os Espíritos superiores afirmam que o homem é, na maioria das vezes, o artífice da própria infelicidade. Isso pesa, mas também liberta. Se muitas vezes fomos nós que construímos a situação, também somos nós que podemos começar a desmontá-la.
A justiça divina não é arbitrária. É perfeita, infalível e educativa. Deus dá a liberdade de escolher, e as leis naturais e morais se encarregam das consequências. Um pai amoroso não pune por prazer: ele ensina. E, na maioria das vezes, ensina com muito mais brandura do que mereceríamos.
A morte não transforma ninguém em anjo
Há uma ideia muito difundida de que a pessoa morre e melhora automaticamente. De que basta um arrependimento de última hora para que tudo se resolva. O estudo é claro em outra direção: nós somos Espíritos, e continuamos exatamente quem éramos.
Se aqui caminhamos torto, do outro lado o caminho continua torto. Não há atalho, há evolução. Daqui nos preparamos para lá, e de lá nos preparamos para voltar. É através das dificuldades, das quedas e das reparações que vamos adquirindo alguma pureza.
Como lembra a questão 959, a vida presente é apenas o começo da vida do Espírito, e a vida futura é a consequência e o complemento da vida corporal.
Amar os bichos sem esquecer o irmão
Uma história contada no grupo ficou na memória de todos. Uma amiga que, depois de sucessivas desilusões amorosas, se fechou em casa com dezenas de gatos. Cuidava de todos com dedicação absoluta, mas foi se tornando revoltada com o ser humano. Diante de alguém passando fome, dizia apenas que a pessoa tinha escolhido aquilo.
Amar os animais é bonito e é bom. O risco está em usar esse amor como muro. Não estamos aqui para julgar quem sofre, estamos aqui para ajudar. Dá para amar os bichinhos sem deixar de olhar para o irmão que está do lado.
O mendigo e o milionário
Julgamos os dois. Achamos o milionário perdulário e o mendigo culpado pela própria sorte. Mas nenhum dos dois está ali por acaso. Cada situação é uma prova, e cada prova traz o que aquele Espírito precisa trabalhar: a paciência, o desapego, o amor.
Kardec pergunta aos Espíritos qual das duas condições oferece maior chance de progresso, e a resposta aponta para a pobreza, onde as provas são mais duras e o mérito, maior. Jesus já havia dito algo parecido: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.
Entender o propósito da prova alheia, no entanto, nunca nos dispensa de estender a mão.
À luz do Evangelho
O Evangelho ilumina tudo isso. Jesus ensina que o Reino de Deus habita dentro de nós e que são as nossas atitudes que constroem o nosso destino. Ele não fala de castigo, fala das consequências naturais do amor e do egoísmo.
“Amai-vos uns aos outros” é o primeiro ensinamento. “Instruí-vos” é o segundo. E “bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” descreve com exatidão a mecânica de tudo o que estudamos: recebemos aquilo que oferecemos.
Vale lembrar também o convite de Paulo aos coríntios, para que nos examinemos a nós mesmos e reconheçamos que Cristo habita em nós.
Trocar a pergunta
Talvez o ponto mais prático da manhã tenha sido esse. Quase todos nós já perguntamos “Deus, por que isso está acontecendo comigo?”. A questão não é a pergunta, é o sentimento que a acompanha.
Feita com revolta, ela cobra. Feita com reflexão, ela ensina. Trocar “por que estou sofrendo?” por “o que eu preciso aprender com isso?” muda inteiramente o peso da experiência. E, quando conseguimos fazer essa troca, tudo fica mais leve.
Nas religiões que pintam Deus como um ser vingativo, o medo é usado para manter as pessoas em comportamentos aceitáveis. É uma visão medieval. A lei de justiça, amor e caridade vem toda junta, como bolo pronto: depois de assado, não há como separar o leite, o ovo e a farinha.
Livre-arbítrio e a balança
A imagem que ficou foi a da balança. Todo dia, a cada escolha, colocamos algo de um lado e algo do outro. O livre-arbítrio é real: podemos fazer o bem ou o mal. Mas colher aquilo que semeamos também é real.
Viver com a balança em mente é viver mais leve, não mais tenso. É poder dizer com clareza: vou fazer isso, e essa será a consequência.
O arrependimento sincero e a reforma íntima abrem sempre as portas da renovação. Não existe sofrimento sem causa e não existe sofrimento sem propósito educativo.
Para levar
As penas e os gozos, terrestres e futuros, não são castigos. São instrumentos de amor e de sabedoria divina. Cada experiência é uma oportunidade de aprender, evoluir e nos aproximarmos de Deus.
Que possamos usar bem o tempo presente, praticando o bem e cultivando a caridade, e assim construindo um futuro de luz, paz e alegria.
Não estamos sendo punidos. Estamos sendo amados.