Neste encontro reunimos os dois livros que costumamos estudar — O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos — e daí nasceu o tema: como lidar com a dor e o sofrimento.
É uma pergunta que ninguém escapa de fazer, mais cedo ou mais tarde.
Primeiro, o que é cada coisa
Sofrimento é uma experiência que envolve dor física, emocional ou moral, acompanhada de sentimentos de infelicidade, perda ou frustração.
Dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, ligada a uma lesão real ou possível no corpo.
A gente usa as duas palavras como sinônimos no dia a dia, mas separá-las ajuda muito. Existe uma frase que descreve bem essa diferença: a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma escolha.
Mas é mesmo necessário sofrer?
Não seria mais fácil se a gente simplesmente não passasse por isso?
Talvez fosse mais fácil. Não seria mais útil. O sofrimento acaba funcionando como ferramenta de evolução: passamos por uma experiência, aprendemos com ela e crescemos. Quando aceitamos reencarnar, assinamos esse contrato sabendo que aquilo seria importante para nós. Não lembramos o que fizemos nem o que pedimos, mas em algum momento pedimos.
É uma nova oportunidade. E é exatamente por isso que estamos aqui: o que não conseguimos ser numa vida passada, temos a chance de corrigir agora.
A mesma dor, reações completamente diferentes
Aqui está o ponto que muda tudo: a mesma dor aparece de formas diferentes para cada pessoa, porque o que difere é a maneira de encará-la.
Imagine duas pessoas com a mesma doença grave. Uma aceita, se trata, mantém a leveza e a disposição — não porque goste de estar doente, mas porque aceitou o processo. A outra se revolta, briga com Deus, se consome. O sofrimento é o mesmo. A travessia é outra.
Há um relato do Paulo Frutuoso que ilustra isso bem. Durante uma cirurgia espiritual, ele ouvia o espírito falando em inglês e só entendia uma palavra, repetida o tempo todo: wonderful, wonderful, wonderful. A paciente estava com câncer terminal. Quando ele perguntou depois o que havia de maravilhoso ali, a resposta foi simples: era a forma como aquela mulher estava aceitando a doença.
Sofremos mais ou menos de acordo com aquilo que aceitamos.
E quando não há nada a mudar?
Existem situações em que não há o que fazer. Uma criança que nasce com uma deficiência física que não vai melhorar. Um Alzheimer que chega e se instala.
E aí vem a pergunta: essa dor é só da pessoa? Ou é da família inteira?
Se é para o resto da vida, você vai sofrer o resto da vida? Ou vai aceitar que aquilo existe na sua família e decidir como reagir? Buscar oportunidades para aquela criança, ver o que facilita a rotina, organizar em união familiar como será essa administração.
Para isso é preciso estrutura — e é preciso autoamor. Você precisa se amar para conseguir sustentar. Não existe família perfeita; toda família tem alguma dor. A pergunta é sempre a mesma: de que forma você vai reagir?
O Espiritismo mata a morte
Falamos também dos bebês que nascem e partem em pouco tempo, e da diferença entre a dor, o sofrimento e o desespero. Quando se compreende que aquele espírito vinha mesmo por um período curto, e que houve um acordo ali, você não deixa de sofrer — mas carrega esse sofrimento de forma mais leve, porque entendeu o funcionamento do ciclo da vida.
O Espiritismo consola de verdade.
Uma história que ouvi a caminho do encontro: uma senhora que perdeu cinco filhos, um atrás do outro. A cada perda ela corria para o Chico Xavier, e o Chico a consolava. Na última vez, ele ficou sem saber o que dizer. Foi Emmanuel quem trouxe a explicação — ela havia sido conselheira de Catarina de Médici e influenciara a matança de cristãos na noite de São Bartolomeu. Ela compreendeu, desencarnou pouco depois e, trabalhando no bem, conseguiu resgatar aquele passado.
Mesmo quando não sabemos o porquê, aprendemos a confiar que existe um porquê. Como alguém resumiu: é como se o Espiritismo matasse a morte e amenizasse o sofrimento.
Tudo o que é material tem tempo de duração — inclusive o corpo, inclusive os órgãos. Uma hora eles não aguentam mais. Por isso importa tanto entender que o ter é passageiro e o ser é o que fica.
De onde vêm boa parte dos nossos males
O Evangelho é direto nesse ponto: muitos dos males terrestres são consequência natural do nosso próprio caráter e proceder.
Quantos caem por culpa própria. Quantos são vítimas da própria imprudência, do orgulho, da ambição. Quantas uniões infelizes nascem de cálculo de interesse ou vaidade, sem que o coração tenha tomado parte. Quantas doenças decorrem da intemperança e dos excessos. Quantos pais são infelizes com os filhos porque não combateram desde cedo as más tendências — por fraqueza, por indiferença, deixando crescer neles o orgulho e o egoísmo, e colhendo depois a ingratidão.
Quantas vezes não queremos dizer não, não queremos colocar limite — e uma hora somos cobrados justamente por aquilo que deixamos de fazer.
Kardec convida a interrogar friamente a própria consciência e remontar passo a passo a origem dos males que nos torturam. Quase sempre chegamos à mesma conclusão: se eu tivesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria assim.
A vida é aprendizado. Vamos acertar e vamos errar. O que importa é que, no erro, a gente compreenda de fato por que errou.
Justo — e misericordioso
A lei humana alcança certas faltas e as pune, mas não alcança todas. Ninguém pode ser punido pela Terra só por sentir inveja. Nas leis de Deus, sim: você inveja o que é do outro e isso tem consequência.
Deus quer que todas as criaturas progridam, e por isso não deixa impune nenhum desvio. Nenhuma infração, por mais leve, deixa de trazer consequências. Os sofrimentos que decorrem da falta são uma advertência de que procedemos mal — dão experiência, fazem sentir a diferença entre o bem e o mal e a necessidade de melhorar. Sem isso, não haveria motivo para nos emendarmos.
Mas Ele também é misericordioso. Não é porque alguém matou que será morto. A dívida pode ser parcelada, suavizada, transformada. Quem tirou vidas pode voltar como médico que salva. Há muitas formas de fazer o bem — o segredo é enxergá-las.
E, quando a experiência chega tarde demais, quando as forças já se gastaram e o homem se pega dizendo “se eu soubesse no começo o que sei hoje, quantos passos em falso teria evitado” — mesmo aí há recomeço. Assim como o sol se levanta para o operário no dia seguinte, também para nós, depois da noite do túmulo, brilhará o sol de uma nova vida.
Só que nem precisamos esperar tanto. Todo dia que acordamos é uma oportunidade de fazer diferente. O que ficou de ontem pode começar a mudar hoje.
Provas e expiações
Pela justiça distributiva, muitas vezes sofremos aquilo que fizemos sofrer. Quem foi duro e desumano pode ser tratado com dureza. Quem foi orgulhoso pode nascer em condição humilhante. Quem foi avaro ou fez mau uso das riquezas pode se ver privado do necessário. Quem foi mau filho pode sofrer pelo procedimento dos próprios filhos.
Mas nem todo sofrimento é expiação. Muitas vezes são provas buscadas pelo próprio espírito, para concluir sua depuração e ativar o progresso. A expiação sempre serve de prova, mas nem sempre a prova é expiação.
Existem pessoas de bons instintos, alma elevada, sentimentos nobres, que parecem não ter trazido nada de mau das existências anteriores e ainda assim atravessam dores enormes com resignação — pedindo a Deus apenas aquilo que possam suportar sem murmurar. E existe até o espírito já elevado que solicita uma missão difícil, sabendo que a recompensa será proporcional à dureza da luta.
Já as aflições que provocam queixa e revolta contra Deus podem ser lidas como expiação. O sofrimento buscado voluntariamente, e não imposto, é sinal de forte resolução — sinal de progresso.
Sejamos honestos: como humanos, todo mundo dá um murmurinho no primeiro momento. É o impacto. O que importa é o depois.
O bem alivia a dor
Dor e sofrimento são amenizados pelo bem. Caridade, doação, serviço.
O processo é individual — precisamos nos autoconhecer —, mas há também a parte que é auxiliar o próximo. Quando ajudamos alguém, nos anulamos um pouco para caber ali, e nesse movimento esquecemos a nossa própria dor. Falando do outro, a gente esquece o nosso. E esse “outro” não é só o próximo humano: são os animais, é tudo.
Vale lembrar que a caridade tem duas mãos. Falamos muito em praticar, mas na hora de receber também é preciso estar de cabeça aberta — senão é o orgulho que impede o consolo de chegar. E quem se doa precisa cuidar para não humilhar quem recebe, fazendo “do jeito que eu quero” só porque está ajudando.
Um bom critério: se eu não gosto de algo para mim, provavelmente não vou querer fazer para o outro.
E dizer não também é caridade — para nós e para o outro. Basta ver uma criança que pede o tempo todo: se você dá tudo, sempre, como ela aprende?
“Por que eu?” — ou “por que não eu?”
Milhões de pessoas morrem por dia e achamos isso natural. Quando chega na nossa casa, a pergunta muda: por que na minha família? Por que comigo?
Talvez a pergunta certa seja por que não eu?
Porque quando insistimos no “por que comigo” muitas vezes o que está falando ali é o orgulho: sou tão especial que isso não pode me acontecer.
A dor nos torna empáticos. Ela nos faz renascer, repensar, recalcular, avaliar o que realmente importa. Permite abrir mão do que não precisamos para irmos atrás daquilo que nos faz bem e nos conecta com o divino.
E há quem, tendo sofrido desde pequeno, escolha ajudar em vez de se vitimizar. São pessoas que parecem brilhar, e a gente se pergunta como ainda estão de pé. Estão de pé porque usaram o sofrimento para evoluir.
O luto tem lugar
Nada disso significa não sofrer.
Você perde alguém e sofre, por mais que estude. E é importante se entregar à dor nesse momento — porque a gente amou. Viemos aqui para aprender a amar, amamos intensamente, e mesmo assim as pessoas vão embora.
A pergunta não é se vamos sofrer. É por quanto tempo vamos ficar no luto. A dor sempre vai existir; o sofrimento prolongado é outra coisa. Uma hora a gente cansa de sofrer e decide seguir.
Sofremos porque ainda não aprendemos a amar
Foi a frase que mais mexeu comigo, do livro Renovando Atitudes.
Uma das participantes trouxe uma experiência com o filho, que é bastante dramático e vive dizendo que tudo de ruim acontece com ele. A orientação foi mudar a declaração: em vez de “eu sou ruim, comigo é sempre assim”, passar a afirmar eu sou luz, eu sou paz, eu sou prosperidade, eu sou amor — todos os dias, até que aquilo tome o lugar da velha crença.
Temos uma cultura que às vezes cultiva o sofrimento como identidade. E é aí que entram a reforma íntima e o autoconhecimento: quando você conhece seus limites, sabe onde dói e onde não dói, e escolhe se vai avançar ou não.
Fica a pergunta com que encerramos o encontro, e que continua aberta: quando desenvolvemos o autoamor, as coisas realmente chegam mais leves? Sofremos menos porque amamos mais?
Referências: O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec; Renovando Atitudes.