Reflexões sobre as leis morais — Livro dos Espíritos, questões 614 a 618
Uma menina viajava de avião ao lado de uma senhora que não conhecia. No meio do voo, veio a turbulência. O avião sacudia, a senhora se agarrava ao assento, e a menina continuava ali, tranquila, lendo sua historinha. Sem aguentar mais, a mulher se virou para ela:
— Você não está com medo? Eu estou desesperada, e você aí, calma…
A menina levantou os olhos do livro e respondeu, sem drama nenhum:
— O piloto é meu pai.
Ouvi essa história numa palestra de Haroldo Dutra Dias e ela não me saiu mais da cabeça. Quantas vezes já nos desesperamos com as coisas da vida e esquecemos exatamente disso — de quem é o piloto? Não que a gente deva cruzar os braços e não tomar atitude. Mas há uma diferença enorme entre enfrentar um problema apavorado e enfrentá-lo com a confiança de que ele vai se resolver. Nada no universo é perpétuo. Nem os problemas.
As leis de Deus não estão escritas em lugar nenhum
Quando começamos a estudar as leis divinas, costumamos chegar com a cabeça errada. Somos tão habituados a códigos, artigos, incisos e regulamentos que procuramos alguma espécie de legislação cósmica — um lugar onde tudo isso estaria registrado.
Não existe. Deus não é material, e as leis dele não são um documento. Assim como Deus simplesmente é, as leis simplesmente são. A vida e a morte não precisam estar escritas em canto nenhum para funcionar.
Essa é a nossa mania: tudo o que não entendemos, tentamos colocar numa caixinha do nosso tamanho. Humanizamos Deus porque só sabemos pensar em termos humanos. Mas a verdade costuma ser mais simples do que a caixinha.
“A lei natural é a lei de Deus” (q. 614)
À pergunta sobre o que se deve entender por lei natural, os Espíritos respondem que ela é a lei de Deus, a única verdadeira para a felicidade do homem: ela indica o que ele deve fazer ou deixar de fazer, e ele só é infeliz quando dela se afasta.
As leis morais expressam princípios divinos que orientam o progresso do espírito. A criação tem direção, tem propósito — ainda que na maior parte do tempo a gente não faça ideia de qual seja. Estamos aqui para trabalhar, e esse trabalho tem um sentido: elevar a alma na direção da perfeição, porque Deus é perfeito.
Aliás, uma pergunta que aparece cedo em qualquer estudo: se Deus é perfeito, por que não nos criou perfeitos? Porque então não haveria trabalho. Não haveria nada a desenvolver, nada a conquistar. Seríamos objetos. O que é dado de graça raramente é valorizado — daí o velho ditado sobre dar o peixe ou ensinar a pescar.
Aprendemos pelas consequências
Uma das coisas mais fortes daquela palestra foi esta: as leis se aprendem muito mais pelo resultado do que pelo enunciado. Aprendemos pela dor, pela consequência. Alguém mata, alguém é preso — e assim se entende que não se deve matar. As leis podem ser lidas nas consequências daquilo que fazemos.
Temos livre-arbítrio, sim. Podemos sair do caminho quando quisermos. O que não podemos é escolher as consequências de ter saído. Ação e reação.
E vale dizer: nem sempre a consequência precisa bater na nossa porta. Às vezes aprendemos vendo o que aconteceu com outra pessoa, ou por uma notícia que toca o coração, ou simplesmente porque algo desperta dentro de nós. E às vezes — quando já estamos um pouco mais adiante — aprendemos por amor, antes que a dor precise ensinar. Mas não adianta insistir com quem ainda não está pronto para ouvir. Uma mãe pode repetir o mesmo alerta ao filho dezenas de vezes; ele só vai entender quando entender.
Eterna e imutável (q. 615 e 616)
A lei de Deus é eterna e imutável como o próprio Deus. Não há negociação.
Pense no nascimento e na morte. Nesta realidade, tudo tem princípio e tem fim. Uma planta nasce e morre. Um cachorro nasce e morre. Uma estrela a milhões de anos-luz nasceu e um dia morre — tanto que a luz que nos chega hoje pode vir de um astro que já não existe mais, e ainda assim continuamos a vê-lo brilhar. É esse tipo de lei que não se altera, e que não temos a menor capacidade de alterar.
Poderia Deus ter prescrito numa época o que proibiu em outra? Deus não se engana. Quem precisa modificar as próprias leis somos nós, porque as nossas são imperfeitas.
Pense na tecnologia. Faz sentido hoje usar um telefone de manivela, como o da época de Graham Bell, tirando o fone do gancho e girando a manivela para funcionar? Faz sentido ter um fogão a lenha num estúdio do tamanho de uma sala? A comida fica ótima, ninguém nega — mas a realidade mudou. As leis dos homens progridem junto com aquilo que os homens vão conhecendo.
A lei de Deus, não. O bem e o mal são intrínsecos, e nós os sentimos porque todos trazemos a centelha divina. Não seria preciso escrever “não matarás” numa tábua de pedra para sabermos que matar é ruim. Foi preciso escrever — e depois foi preciso que o Cristo viesse repetir — porque a humanidade precisava do chacoalhão. O que muda ao longo das eras não é a lei: é o nosso entendimento dela.
A lei da destruição — e a destruição “entre aspas”
Quando falamos de destruição, a história do mundo é bem clara. Guerras destruíram bibliotecas e monumentos que jamais teremos a chance de ver. Do Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo, restaram apenas relatos. E não é passado remoto: na Síria, monumentos antiquíssimos foram destruídos por bombas há poucos anos. A humanidade insiste em não aprender. O que nos cabe é orar para que isso mude, para que Deus tenha piedade — porque, como disse Jesus na cruz, eles não sabem o que fazem.
Há também a destruição da natureza, cujas consequências já nem são mais discutíveis: a natureza cobrando ser respeitada.
E há a destruição que fazemos em nós mesmos, sem chamar pelo nome. Drogas, álcool, açúcar, pensamentos negativos — coisas que parecem inofensivas e vão destruindo nossas células por dentro. Daria pano para manga.
Mas nem toda destruição é ruim. O fio de cabelo morre — quem trabalha com cabelo vê isso claramente nas pontas partidas. Cortá-lo é uma destruição necessária, como podar uma árvore. Faz parte da mesma lei: tudo nasce, tudo morre. Nesses casos, destruir é apenas acompanhar o ciclo.
Todas as leis da natureza são leis divinas (q. 617)
As leis divinas dizem respeito apenas ao procedimento moral? Não. Todas as leis da natureza são leis divinas, pois Deus é o autor de tudo. O cientista estuda as leis da matéria; o homem de bem estuda e pratica as da alma.
Conhecemos hoje o átomo, a química, a física — e todas essas ciências têm leis. Mas de quem são essas leis? Se Deus criou tudo, tudo o que descobrimos é descoberta daquilo que já existia.
Cabe ao homem aprofundar umas e outras — só que uma única existência não basta para isso. Daí a reencarnação. Não adianta viver cem anos: é pouco para tudo o que precisamos aprender. E quando pensamos na linha do tempo do planeta, a nossa vida é um cisco; e o planeta, um grão dentro de um universo imenso.
A cada retorno não nos lembramos da existência anterior, mas algo fica gravado no espírito. É por isso que evoluímos.
E nos outros mundos? (q. 618)
As leis divinas são as mesmas em todos os mundos? A razão diz que devem ser apropriadas à natureza de cada mundo e adequadas ao grau de progresso dos seres que o habitam.
Em Cartas de uma Morta, psicografado por Chico Xavier, a autora espiritual passa por diferentes mundos e pergunta ao guia se ali, em orbes mais evoluídos que a Terra, ainda existem provas e dificuldades. A resposta é sim — não do nosso jeito, não pela dor como aprendemos aqui, mas de acordo com a evolução daquele lugar.
Costumamos imaginar que um mundo mais adiantado não teria dificuldade alguma. Mas se lá ainda há o que superar, é sinal de que também não chegaram ao fim do caminho. Ninguém chegou. O trabalho continua, e continua, e continua — e é justamente ele que nos leva adiante.
A lei do amor
Essa, para mim, é a parte mais bonita. As leis divinas não são regras externas: são um convite à transformação interior. Jesus resumiu toda a essência moral em amar a Deus e ao próximo, e veio mostrar o caminho com a própria vida.
Quem é pai ou mãe sabe o que vale um filho. Ninguém quer ver o filho sofrer. Que amor é esse, então, capaz de deixar o filho passar por tudo aquilo para mostrar o caminho a uma humanidade inteira? É um amor sem medida, incondicional, que a nossa cabeça nem alcança direito.
Dizem que o amor de mãe é o que mais se aproxima do amor de Deus aqui na Terra. Talvez porque a mãe nunca se desapega da esperança: para o mundo inteiro o filho não presta, e para ela ainda há salvação. E esse amor transborda — se estende a outros filhos, a outras mães. Uma mãe que perde um filho dói em todas as outras, mesmo nas que nada perderam. Uma criança abandonada desperta em qualquer mãe a vontade de pegá-la no colo, porque criança é criança, não importa de quem seja.
Isso vale igualmente para o pai. A cultura costuma cobrar pouco do homem, mas quem gerou é responsável — e existem pais que criaram filhos sozinhos com um amor imenso, pais que dizem que teriam gerado na própria barriga se pudessem.
O que parece importar não é o gênero, e sim os papéis. A criança precisa de alguém que a acolha, que dê afago; e precisa de alguém que eduque, que mostre a disciplina e um pouco da dureza do mundo — porque a vida não é só o morango que às vezes se pinta em casa. Muitas vezes esses dois papéis se dividem naturalmente entre pai e mãe; muitas vezes não. Quem cria sozinho precisa se desdobrar para fazer os dois. Não é fácil. É possível — e faz parte da evolução.
E sobre acolher quem não nasceu da gente: quanto Deus se agrada de quem abraça o órfão. Nenhuma alma merece crescer sentindo-se sozinha, desamparada, com medo. Quando alguém direciona o amor a uma criança que não gerou, é porque de alguma forma já estava escrito que aqueles dois seres iriam se encontrar para evoluir juntos.
Do conhecimento à atitude
Conhecer as leis morais é só o primeiro passo. É preciso vivê-las.
É o mesmo que dizemos sobre a caridade: não adianta estudá-la, é preciso praticá-la. E a caridade não é apenas material. Ouvir uma amiga que perdeu alguém querido e acompanhá-la no luto é caridade. Uma palavra na hora certa é caridade.
O progresso espiritual acontece quando o conhecimento vira atitude. Cada gesto de amor e de justiça transforma — a nós e ao mundo. Como está em Mateus 7:12, façamos aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem de bom.
Que o estudo nos dê discernimento, que o Evangelho nos dê a direção e que o amor nos dê coragem para seguir sempre em frente.
Estudo baseado em O Livro dos Espíritos*, de Allan Kardec (questões 614 a 618), com referências ao Evangelho e à Bíblia Sagrada, e em palestra de Haroldo Dutra Dias sobre as leis morais.*